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POLICIAL MILITAR: HERÓIS, VILÕES E SUICIDAS

Apesar de recentes providências positivas tomadas pelo governador Geraldo Alckmin, continua bastante grave o estado psicológico de uma boa parte dos integrantes da Polícia Militar de São Paulo. Neste ano, quase 20 policiais se suicidaram, por não terem suportado inúmeros problemas, que vão dos salários baixos até o choque com a violência.

Até setembro, 2.685 PMs haviam comparecido ao Centro de Assistência Social da Polícia Militar, em busca de apoio psicológico. Mais 100 foram encaminhados para tratamento psiquiátrico. Outros 300 policiais ficaram na fila para sessões com psicólogos.

O tenente-coronel PM Paulo Roberto Xavier, chefe do Centro de Assistência Social, explica que “os policiais militares são pessoas nitidamente estressadas”. Já o capitão Eduardo da Silva Almeida, que é chefe do setor de psicologia nesse centro, comenta que “o policial militar tem um status elevado na comunidade em que vive, pelo menos em termos de conceito, mas esse status não é compatível com seu salário”.

O salário é baixo. Tendo de manter mulher e filhos, muitos desses policiais partem para um segundo emprego, o chamado “bico”, que, entretanto, é condenado pelo comando da corporação. Assim, tendo ainda de enfrentar bandidos violentos, os PMs vivem verdadeiros dramas, passando por crises existenciais de difícil solução.

O comandante-geral da PM, Rui Cesar Mello, mostra-se disposto a solucionar esse problema, mas reconhece que o Governo do Estado não tem dinheiro para dar um salário mais adequado aos PMs. Com isso, fica uma roda viva: policiais enfrentam o perigo, arriscando a vida, em troca de algumas moedas, e preocupam-se com suas famílias.

Segundo uma pesquisa, o índice de suicídios de PMs é oito vezes maior que o da média da população paulista. Os números demonstram que, para grupo de 100 mil habitantes de nosso Estado, ocorrem em média 4,61 suicídios por ano. Já entre os policiais militares, esse índice salta para 35,6. A pesquisa foi feita pelo tenente-coronel Ib Martins Ribeiro, chefe do Centro de Seleção, Alistamento e Estudos de Pessoal da PM.

De acordo com o levantamento, metade dos suicídios de PMs ocorrem nos primeiros seis anos de atividade, demonstrando que novos policiais sofrem um grande impacto com as condições limitadas de trabalho e com a violência nas ruas. Segundo o tenente-coronel Ribeiro, tem havido apoio psicológico e religioso aos PMs, na tentativa de reduzir os índices elevados de suicídios. Mas mesmo assim as mortes são numerosas: em 1998, houve 32 casos de suicídio; em 1999, foram 31; em 2000, somaram-se 24. Em 2001, até setembro, já eram quase 20 casos. Houve uma queda sensível dos casos, mas sem espaço para otimismo.

A psicóloga Denise Monetti, especialista em saúde do trabalho e pesquisadora da Fundacentro, órgão ligado ao Ministério do Trabalho, afirma que o aumento da violência e as pressões da sociedade e da corporação por resultados levam os policiais ao stress.

O policial militar pode ser herói, quando consegue prender um bandido que atormenta a população. Mas, muitas vezes, o bandido vence a luta e o policial acaba sendo morto, com sua família tendo como consolo as homenagens póstumas. Há também os casos de policial que usa de energia para combater a violência dos criminosos e é punido, como aconteceu durante o governo Mário Covas. É torturar quem está ao lado da lei e do bem. (Matéria de 2002)


POLÍCIA: A MAIORIA PAGA PELOS MAUS

É preciso entender as dificuldades de nossa época para equacionar melhor os problemas da Polícia. Com a brutal onda de desemprego que atinge a população inteira e profissionalmente desqualificada, muita gente pensa que a Polícia Militar seja a salvação. Muitos se candidatam ao ingresso na PM, porque têm os dentes cariados, que serão tratados de graça pelo Estado. Começa aí o prejuízo dos cofres públicos.

Tão difícil é a seleção de pessoal não vocacionado que, entre milhares de candidatos, poucos são aprovados e, ainda assim, precisam fazer curso de adaptação.

Nesse quadro de dificuldades, a Polícia – Civil e a Militar – acaba sendo vítima dos que fazem da farda instrumento de corrupção. São poucos mas denigrem a todos, como mancha de barro em parede branca.

Isto não dá o direito de se criticar toda a Instituição. É preciso separar as coisas: punir os maus e incentivar os bons, que são maioria. Todos os dias os policiais arriscam suas vidas no combate ao crime, no mais absoluto anonimato. Ninguém lhes dá um tapinha nas costas, encorajando ou agradecendo pelo desprendimento em favor do povo. Mas basta que algum deles, desatinado, cometa uma infração para que se apontem dedos acusadores para toda a corporação.

Quem tem bom senso e julga com isenção, quem separa o joio do trigo, sabe que atitude assim não é correta. Devemos, então, credibilidade e respeito aos nossos policiais.


NOSSA POLÍCIA DESMORALIZADA

Que a Polícia paulista como um todo se arrastava desmotivada por baixos salários, falta de condições de trabalho e até por perseguição funcional a alguns civis e militares, não era nenhuma novidade. Só que a isso tudo se soma, desde semana passada, quando da invasão do 27º Distrito, no bairro do Campo Belo, sua total des-mo-ra-li-za-ção.

Os criminosos que tomaram conta de São Paulo ultrapassaram as raias do tolerável e superaram sua própria ousadia. E, mesmo assim, o secretário da Segurança Pública, dr. Petreluzzi, diz que o fato de delegada e seus agentes apanharem dentro do plantão e se verem ameaçados, durante a tomada da delegacia por 17 bandidos que resgataram 41 presos, só ganhou repercussão na imprensa, no rádio e na tv por que aconteceu num plantão policial de bairro “chic”.

O governador Mário Covas, instado publicamente pela falta de segurança, assumiu total culpa pelo ocorrido e pela fraca política de (in)segurança que insiste em manter no Estado, chegando a pedir desculpas pelos erros que sua administração tem cometido nessa crucial área.

E daí? Essas justificativas que nada explicam e o “mea culpa” de araque resolvem alguma coisa? Algo precisa ser feito, de imediato, para ontem, a fim de que seja resgatada a auto-estima das forças policiais de São Paulo. Só falta, agora, a bandidagem tomar de assalto a sede da SSP, na avenida Higienópolis, ou invadir o Palácio dos Bandeirantes e colocar em risco a honrada família de Sua Excelência, o culpado de tudo.


A PROVA: PLANO DE SEGURANÇA É BLEFE

Um mês atrás, comentei que o tão anunciado Sistema Único de Segurança Pública (Susp) lançado pelo Ministério da Justiça do governo Lula para tentar combater a violência que assola o País, havia chegado com o sabor de “este filme nós já vimos”, também fadado a não sair do papel, a exemplo de tantos outros em governos anteriores. Pois bem: agora, grande parte da mídia do País chega à mesma conclusão, ao demonstrar que o Susp deverá ter um impacto bem menor do que o alardeado. Até agora, apenas Rio e Espírito Santo receberam dinheiro previsto pelo governo federal para equipar as polícias. Há outros sete Estados na “fila” e o governo quer que todo o País integre o programa. Para tudo isso, porém, a verba não passa de R$ 299 milhões: é dinheiro semelhante ao total surrupiado pelo juiz aposentado Nicolau dos Santos Neto, o Lalau, da construção de um  prédio em São Paulo do Tribunal do Trabalho, marcado pela corrupção.

O Estado de São Paulo, sozinho, pretendia receber do Susp um total de R$ 242 milhões. Conversando com dezenas de prefeitos paulistas, no fim de maio, o secretário Nacional da Segurança Pública, Luiz Eduardo Soares, admitiu que não existe o dinheiro.

Por enquanto, o que resta é apenas a esperança de que o Banco Mundial (Bird) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)  liberem, só em 2004, os 2 bilhões de dólares pedidos pelo governo Lula como financiamento para esse projeto. Enquanto isso, não há dúvida: os bandidos continuarão deitando e rolando. Certo está o governador Geraldo Alckmin, de tentar resolver os problemas da polícia paulista por conta própria, sem esperar ajuda federal. O novo plano, conforme suspeitava, não passa de mais um blefe.


FORÇA NACIONAL DEIXA DÚVIDAS

O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, sempre vaidoso, que chegou a repetir quase dez vezes que “não existe um tiro de canhão” para resolver a caótica questão da segurança pública no País, acabou anunciando, depois de muito ensaio e vai-e-vem, que o governo Lula vai afinal criar a Força Nacional de Segurança Pública. Segundo Bastos, a Força atuará, como unidade especializada, em qualquer Estado brasileiro, substituindo as tão requisitadas e improvisadas tropas das Forças Armadas. Isso é solução? Há dúvidas!

A idéia apresentada é a de recrutar, nos Estados de São Paulo e do Rio, os melhores integrantes da Polícia Federal, assim como os das Polícias Civil e Militar estaduais paulistas e fluminenses. Seriam chamados 1.500 integrantes da futura Força, que ficariam confinados na Academia Nacional da Polícia Federal, em Brasília, para treinamento especial. Em seguida, esse contingente ficaria pronto para intervenções, sempre que necessário, para manter a ordem pública – como no caso de possíveis greves das polícias estaduais, semelhantes às deflagradas recentemente em Minas e no Pará.

Promete-se “sofisticado serviço de inteligência” – esta é a palavra da moda na área de informações – para municiar  o grupo estilo super-homem, gente acima de qualquer suspeita, pau-prá-toda-obra, poupando o presidente Lula de cumprir a exigência constitucional de acionar o Exército. Mas falta mostrar como a Força funcionará e qual o papel da União e dos Estados.


POLÍCIAS, CRISE QUE É DOS GOVERNOS

Duas notícias divulgadas com destaque pela imprensa no início de agosto estão diretamente relacionadas a um antigo problema de todo o País, em especial do Estado de São Paulo: a crise das polícias. Numa época em que prossegue a escalada da criminalidade e da violência, enquanto os governos federal e estaduais apresentam ridículas propostas de solução, policiais honestos e competentes são maltratados ou mortos. Maus profissionais têm sido expulsos das polícias, mas ainda assim persiste a corrupção.

Os números são chocantes. De acordo com uma pesquisa nacional,  neste ano, até 15 de julho, foram mortos 281 policiais civis e militares. Esse balanço indica que, a cada 17 horas, um policial morre, vítima de violência, em algum Estado brasileiro ou no Distrito Federal. O Estado do Rio aparece como líder, no triste campeonato da execução de policiais: 81 mortes, sendo 69 da Polícia Militar e 12 da Civil. São Paulo surge logo atrás, com 59 mortes, sendo ­51 PMs e 8 civis. Em seguida, vêm a Bahia, com 29; Minas, com 23, e o Pará, com 18.

O detalhe revoltante é que a grande maioria dessas mortes, 71%, ocorreu quando os policiais estavam oficialmente de folga: na verdade, a serviço de um segundo emprego, de um “bico”, algo que se tornou habitual a partir do fato de os salários de policiais estarem baixos em todo o Brasil.

Por outro lado, em nosso o Estado, foram demitidos neste ano quase 500 maus policiais. Não houve solução? Crise das polícias é crise de governos.


A TRISTE REALIDADE DA PM

Durante mais de 30 anos de trabalho no combate contra o crime, tenho mostrado a necessidade de os policiais serem pagos com salários dignos e contarem com comando firme, capaz de orientá-los e incentivá-los. No Estado de São Paulo, apesar dos esforços em superar deficiências surgidas no âmbito das polícias Civil e Militar, na segunda metade da década de 90, existem seqüelas que limitam a ação contra assaltantes, traficantes de drogas, seqüestradores e assassinos. Reflita: um soldado da Polícia Militar paulista, em início de carreira, recebe apenas R$ 1.150,00 mensais para se expor na luta contra bandidos, sem saber se sobreviverá. Esse salário é bem inferior, por exemplo, aos R$ 1.600,00 que empresas de segurança pagam a seus motoristas de carro-forte. Pior: cada um dos 39 presos recolhidos ao Centro de Readaptação Penitenciária de Presidente Bernardes, o presídio de maior segurança no País, custa aos cofres públicos – ou seja, ao povo paulista, por meio de impostos tomados pelo Governo – exatos R$ 3.200,00 por mês, quase o triplo do salário de um PM.

Nos últimos anos, inúmeros policiais militares passaram a ocultar sua verdadeira profissão. Até se escondem. Ameaçados por traficantes e por seqüestradores, eles temem pela própria vida e pela segurança de seus familiares. Isso em troca do salário do medo, uma recompensa às avessas. A segurança pública é fundamental: a população precisa de tranqüilidade!

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AFANASIO JAZADJI - © 2007 - Todos os direitos reservados