
O PROBLEMA DAS
DROGAS E A PERCEPÇÃO
De acordo com uma
pesquisa anunciada pela Secretaria Nacional
Antidrogas do Ministério da Justiça 11,2% dos
brasileiros – que correspondem a mais de 19
milhões de pessoas – são vítimas do alcoolismo.
Esse foi o primeiro Levantamento Domiciliar
sobre Uso de Drogas no Brasil, feito em 107
cidades com população maior que 200 mil
habitantes, incluindo as capitais, e mostrou
também que 9% dos brasileiros são dependentes do
cigarro e 1% faz uso de maconha. Outro dado
destacado pela pesquisa desenvolvida no fim do
ano passado, com 8.589 pessoas entre 12 e 65
anos: quase 1% da população consome cocaína.
O secretário
nacional antidrogas, general Paulo Roberto
Uchoa, despertou grande atenção ao apresentar a
pesquisa, pelo fato de ser revelado que 60,9%
dos entrevistados acham muito fácil conseguir
maconha; outros 45,8% consideram também muito
fácil comprar cocaína; 36,1%, quanto ao crack;
21,1% quanto à heroína.
O general Uchoa
ressaltou que essas afirmações representam a
percepção que as pessoas têm da realidade do
comércio ilegal: neste caso, não são fruto de
experiências pessoais na obtenção de drogas.
Mesmo assim, trata-se de uma conclusão grave.
O coordenador da
pesquisa, o professor da Escola Paulista de
Medicina, Elisaldo Carlini, relativizou essa
“percepção” afirmando que a droga “está no
imaginário popular” do brasileiro. Carlini, uma
das maiores autoridades no tratamento de
dependentes de drogas no País, ponderou que
muitas pessoas, mesmo que nunca tenham sequer
visto maconha ou cocaína, acham que é fácil
obtê-las. Segundo o professor paulista, “a
disseminação do assunto na sociedade” leva a
essa percepção.
Certamente, a
diferença entre a percepção do problema e a
realidade tem prejudicado o efetivo combate ao
consumo de drogas. Uchoa criticou as campanhas
de orientação, afirmando que é contraproducente
apenas “alertar para o medo, o susto” e que é
preciso falar sobre os benefícios para quem não
usa drogas. Ele alertou que, em alguns setores
ou locais há problemas sérios com drogas, mas,
como revelou uma pesquisa internacional,
realizada com critérios semelhantes, o consumo
de drogas ilícitas no Brasil é seis vezes menor,
por exemplo, do que nos Estados Unidos. Uchoa
anunciou que os resultados da pesquisa levarão à
“nova orientação” para as campanhas educativas
do governo, apesar de o segundo mandato do
presidente Fernando Henrique Cardoso estar
praticamente acabando. Com a palavra, o sucessor
de FHC.
A primeira revisão
nesses procedimentos é que a preocupação central
estará no uso excessivo de bebidas alcoólicas,
pela violência e acidentes que provoca,
principalmente no trânsito. O combate às drogas
ilícitas obedecerá, por enquanto, à Política
Nacional Antidrogas, anunciada já no fim do ano
passado por Fernando Henrique.
Nessa política, o
problema é visto não apenas pelo lado da oferta,
como se fosse criado apenas pela ação dos
traficantes que abastecem o mercado, mas sim
colocando ênfase na prevenção e tratamento do
dependente: no combate ao consumo. Não há
dúvidas de que o Brasil precisa melhorar na luta
contra as drogas, atacando simultaneamente os
três lados da questão: o traficante (a ser
preso), o dependente (a ser tratado) e aquele
que pode ser consumidor em potencial (a ser
advertido). Deve ser uma luta sem tréguas.
A CRACOLÂNDIA E O
CHOQUE ENTRE PODERES
A denúncia do
envolvimento de policiais no comando do crime na
Cracolância, em São Paulo, provocou mais uma
grave crise na área da Segurança Pública
paulista, com um choque entre policiais e
promotores. O corregedor-geral da Polícia Civil,
Ruy Estanislau Silveira Melo, demitiu-se do
cargo em 17 de dezembro, depois de protagonizar
uma cena inédita. Com o dedo em riste para o
promotor José Carlos Blat, do Ministério Público
Estadual, ele disse ter sido traído na
investigação do escândalo dos policias do
Departamento de Narcóticos (Denarc). Essa
atitude agravou ainda mais a situação.
A reação de Melo
deixou evidente o maior abalo das relações entre
o Ministério Público Estadual e a polícia. A
cúpula da Polícia Civil elevou o tom das
críticas aos promotores, por ter sido alijada
das investigações na Cracolândia. Promotores do
Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime
Organizado (Gaeco) filmaram, com câmeras da TV
Globo, durante três semanas, flagrantes de
irregularidades cometidas pelos agentes. Até o
secretário da Segurança Pública, Marco Vinicio
Petrelluzzi, soube do caso somente depois da
divulgação das imagens nos telejornais da TV
Globo.
Melo anunciou
formalmente a decisão durante uma tensa reunião
de delegados e promotores, na Corregedoria da
Polícia. Ele disse que “ignoraram a Polícia
Civil e a trataram como se ela fosse constituída
só de corruptos e traficantes”. Melo afirmou
ainda que não aceitou a posterior participação
do promotor José Carlos Blat nas investigações ,
concluindo: “Se ele não confiou na Polícia Civil
quando investigou a Cracoândia, eu também não
posso concordar com a presença dele nas nossas
apurações”.
Na verdade, já em
13 de dezembro, antes do agravamento da crise,
manifestei minha opinião como deputado estadual
acostumado a debater questões de segurança,
lembrando que os promotores públicos deveriam
ter prendido os policiais corruptos logo que
obtiveram provas na Cracolândia, em vez de
esperar a repercussão das reportagens de TV.
Mais tarde, integrantes da Polícia Civil foram
unânimes em afirmar que os promotores tinham
mesmo a obrigação de efetuar a prisão.
A mesma tese foi
demonstrada por juízes e desembargadores ouvidos
pela mídia. Eles disseram que a atuação dos
promotores passou perto de uma prevaricação. Um
desembargador do Tribunal de Justiça não quis se
identificar, mas comentou: “Chegou-se ao cúmulo
da existência de um inquérito policial por
tráfico de drogas que não tem sequer a
materialidade do crime, não tem a droga”.
Esse confronto entre policiais e
promotores teve um detalhe interessante: a
fogueira de vaidades começou dentro do
Ministério Público Estadual. Promotores do Grupo
de Atuação Especial de Repressão e Prevenção aos
Crimes Previstos na Lei Antitóxicos (Gaerpa)
tomaram a iniciativa de comunicar o
corregedor-geral da polícia que acompanhariam a
investigação. Utilizaram como base o ato de
criação do grupo que define como de sua
competência casos de funcionários públicos com o
tráfico de drogas. O Gaerpa acabou preterido
pelo procurador-geral de Justiça, José Geraldo
Brito Filomeno. Chegaram a pedir a saída do
grupo, o que não foi aceito por Filomeno. Diante
de tudo isso, só nos resta esperar que 2002 seja
menos trágico nas relações polícia-promotores.
O TRAFICANTE QUE MANDA NO PAÍS
O Brasil é mesmo
digno de entrar no Livro Guinness de Recordes
com inúmeros fatos positivos, mas também pode
aparecer pelo lado do mal, como acontece no
tráfico de drogas. Um traficante brasileiro,
Leonardo Dias Mendonça, de 50 anos, é apontado
pela Polícia Federal do Brasil e por autoridades
dos Estados Unidos como o principal canal de
drogas de nosso País para os Estados Unidos e
Europa. Leonardo nasceu em Minas Gerais e foi
criado em Goiás. De acordo com levantamento
feito pela Polícia Federal, ele é dono de
fazendas, de rede de lojas e postos de gasolina
no Pará, de milhares de cabeças de gado, terras,
aviões, barcos, carros, motos e casas. Sua
fortuna é estimada pela polícia em R$ 500
milhões. E esse detalhe é importante: Leonardo
atravessou 2002 em liberdade. Segundo a PF, o
deputado federal Pinheiro Landim (PMDB do Ceará)
está envolvido no esquema para freqüentes
obtenções de habeas-corpus para o traficante no
Superior Tribunal de Justiça.
Em Goiânia,
Leonardo foi um humilde office-boy, que
entregava correspondência de moto. Em alguns
anos, tornou-se o homem forte das drogas no
País, e chegou a agir em conjunto com o carioca
Fernandinho Beira-Mar, aquele que aterroriza o
Rio mesmo estando preso. Leonardo começou a
negociar com cocaína no Interior do Pará.
Acusado de tráfico
pelos Estados Unidos, Leonardo faz ligação do
tráfico brasileiro com um grupo guerrilheiro do
país vizinho, as Forças Armadas Revolucionárias
da Colômbia (Farc) das quais compra cocaína para
distribuir no Brasil, Europa e Estados Unidos.
Mendonça vem sendo investigado pela polícia
brasileira há anos. Como se permite que um
bandido desse tipo acumule fortuna ilegal, sem
que a Receita Federal vá atrás dele?
O delegado Mauro
Spósito, da Polícia Federal, afirma que “perto
de Leonardo, Fernandinho Beira-Mar é bagrinho”.
Spósito participa das apurações sobre os
negócios de Mendonça desde 1995. Ele explica
que, enquanto Beira-Mar dedicou-se a abastecer
favelas do Rio e de outras cidades, Leonardo
Mendonça lidou com o mercado internacional.
Relatório de um setor de inteligência americano
especializado no combate ao tráfico revela que
Beira-Mar é subordinado a Mendonça e este se
uniu com o cartel das drogas de Suriname, país
por onde passa a cocaína que segue para os
Estados Unidos e Europa. Aliás, Leonardo é amigo
do ex-presidente surinamês Desi Bouterse, que
foi deposto por corrupção.
Três anos atrás, a
PF intensificou o cerco a Mendonça e seus
sócios. Então, aviões registrados em nome do
traficante foram apreendidos com cocaína. No
momento, Leonardo responde a processo por
tráfico em Goiás, Pará, Maranhão e Mato Grosso.
Em novembro de 1999, foi preso em Goiânia,
passou quase dois anos na cadeia e saiu por
decisão da Justiça Federal. Citado no relatório
da CPI do Narcotráfico da Câmara dos Deputados
como o principal traficante do País, ele negou o
envolvimento com as drogas.
Nesta época em que ocorre a troca
de presidente da República no Brasil e os
Estados iniciam outra etapa administrativa, com
alguns governadores mantidos e outros novos, é o
caso de o País levar a sério o combate ao
tráfico de drogas. Como o traficante Leonardo
Dias Mendonça pode mandar no País? De vez em
quando, canais de TV mostram filmes da máfia
americana, que nas décadas de 20 e 40 mandavam e
desmandavam. Parece que o Brasil vive situação
parecida e precisa acordar: a droga mata a
esperança da juventude.
O AVANÇO DA COCAÍNA NO BRASIL
Em plena cidade de
São Paulo, foi descoberto há poucos dias um
laboratório em que uma quadrilha de traficantes
refinava cocaína para vender em todo o Brasil.
Após longas investigações, policiais do
Departamento Estadual de investigações sobre
Narcóticos (Denarc) localizaram o laboratório,
que funcionava numa casa, no bairro de Vila
Mariana, na zona sul da cidade, e conseguiram
desarticular parte da quadrilha: três pessoas
foram presas. De acordo com a Secretaria de
Segurança Pública, a quantidade de produto
químico encontrado no local seria suficiente
para refinar cerca de 2 toneladas de cocaína.
A polícia também
encontrou uma certa quantidade de material
radioativo, identificado inicialmente como
césio, e material explosivo. Um policial da 4ª
Dise Sul do Denarc fingiu ser um comprador de
produtos químicos e encomendou 80 litros de éter
e acetona, material usado para refinar cocaína.
Ele foi atendido pelo vendedor Eduardo Sodré
Piagentini, de 19 anos, filho de Eduardo Tadeu
Piagentini, foragido da Justiça que é
considerado o principal fornecedor de produtos
químicos para refino de drogas em São Paulo. Na
casa onde seria entregue a encomenda, a polícia
prendeu em flagrante o vendedor, o comerciante
de produtos químicos Benedito dos Santos, de 69
anos, e Lucas Tadeu Bertoni, de 20 anos.
Vejam só a
profissão de Lucas: estudante. Isto mesmo.
Estudante e, nas horas vagas, integrante de uma
quadrilha que prepara cocaína para ser
distribuída em todo o Brasil. Esse quadro do
tráfico de drogas em nosso País merece uma
cuidadosa reflexão. A pergunta que se faz é
muito simples: onde vamos parar? Com a palavra o
futuro presidente, Luiz Inácio Lula da Silva,
eleito com forte apoio popular. Onde vamos
parar?
O Partido dos
Trabalhadores, de Lula, teve durante muito tempo
uma retórica a favor dos direitos humanos em
que, inúmeras vezes, prevalecia um excesso de
zelo pelos direitos de criminosos presos. Nos
últimos meses, entretanto, a postura parece ter
mudado, pelo menos durante a campanha eleitoral.
Hoje em dia, o PT admite a gravidade do avanço
do crime em todas as regiões do País, tanto que
o presidente eleito propõe um pacto de segurança
entre os governadores. O tráfico de drogas tem
muito a ver com os incríveis índices de
criminalidade. O Rio de Janeiro, por exemplo,
sofre diretamente com a máfia das drogas, a
ponto de traficantes como Fernandinho Beira-Mar
conseguirem comandar até mesmo o fechamento de
lojas e escolas: tudo isso, diretamente da
prisão. Já no Estado de São Paulo, onde o
governador Geraldo Alckmin reagiu ao problema,
com ações concretas para mostrar aos bandidos
quem é a verdadeira autoridade, ainda existem
focos de grande gravidade, como demonstra o
desmantelamento do laboratório de refino de
cocaína. ]
Normalmente, a
cocaína é produzida na Colômbia e chega ao
Brasil em forma de pasta, para ser refinada com
a ajuda de produtos químicos. Pois bem: as
quadrilhas ampliam a distribuição de drogas até
mesmo em cidades pequenas e médias do Interior.
Isso tem tudo a ver com o fato de
a cocaína ter preço alto no mercado e, portanto,
ser instrumento de corrupção em determinadas
áreas da polícia. No governo Fernando Henrique
Cardoso, houve muitos planos de combate às
drogas, mas também retrocessos, como o
afastamento do juiz aposentado Walter
Fanganiello Maierovitch da Secretaria Nacional
Antidrogas. Vamos esperar, então, que o futuro
governo tenha propostas efetivas.
AS PREFEITURAS E O COMBATE ÀS DROGAS
O secretário
nacional Antidrogas, general Paulo Uchôa,
manifestou no fim de maio a tese do governo Luiz
Inácio Lula da Silva de que a repressão ao
tráfico de drogas e a prevenção contra o
crescente uso de tóxicos precisa ser uma
prioridade não apenas da União como também dos
Estados e dos municípios. Numa mensagem enviada
ao Congresso, o presidente Lula dedicou um
capítulo inteiro à política de prevenção,
lembrando que a droga é uma das ameaças à
juventude e à sociedade como um todo. O
secretário Uchôa anunciou a reestruturação do
Conselho Nacional Antidrogas e explicou o
projeto de lei encaminhado ao Congresso, que
considera o viciado um “doente” e impõe penas
mais duras ao traficante. Além disso, ele
insistiu na necessidade de apoio das prefeituras
a essa luta.
Com relação à tese
de tolerância quanto aos viciados em drogas,
quero manifestar aqui minha opinião: de fato,
alguns dos dependentes de maconha, cocaína,
crack e outras substâncias táxicas são mesmo
doentes e precisam de tratamento em clínicas,
mas também é preciso mostrar a eles que suas
atitudes prejudicam a sociedade e pode levar a
crimes. Portanto, o Congresso tem uma missão
difícil, a de dar um texto adequado para esse
projeto de lei encaminhado pelo Executivo. Não
vale a pena mudar a lei pela simples vontade de
mudar: é necessário discutir os vários aspectos
da questão e buscar soluções.
Já quanto à idéia
de penas mais rigorosas para traficantes, sou
totalmente a favor. Nos últimos anos, as máfias
do tráfico se multiplicaram porque perceberam
que no Brasil existe impunidade e brechas na
lei, conforme declarou em Santiago do Chile, no
ano passado, um antigo envolvido em movimentos
de terroristas-traficantes.
Cabe agora uma
análise mais cuidadosa das palavras do general
Paulo Uchôa quanto ao pedido feito às
prefeituras para que os municípios se integrem à
luta para impor um sistema eficaz de prevenção
contra as drogas. Na verdade, as palavras de
Uchôa foram de alto nível, em suas primeiras
entrevistas à imprensa como responsável pela
Secretaria Nacional Antidrogas. Afinal, temos de
considerar dois aspectos: o governo Fernando
Henrique Cardoso fracassou por completo nesse
setor e o PT cultivou durante bastante tempo um
estilo excessivamente tolerante em relação à
violência e à criminalidade, optando pela adesão
à “turma dos direitos humanos dos bandidos”.
Felizmente, não é o que se vê agora, por parte
do general Uchôa. Só se espera que as palavras
sejam somadas a ações.
Pedir ajuda aos
prefeitos é bastante válido. De acordo com a
Constituição, a repressão ao crime deve partir
de instituições federais e estaduais, mas o
constante avanço da violência e do tráfico de
drogas recomenda o uso de novos recursos. Um
entendimento entre as várias esferas do governo
certamente será produtivo tanto na repressão
quanto no caso da prevenção. Parceria é algo que
precisa funcionar, em benefício da população.
Convém lembrar que
determinadas cidades paulistas, como Rio Claro,
contam com Conselhos Municipais de Entorpecentes
há cerca de 20 anos. Esses conselhos impõem
política de orientação aos jovens, com ajuda das
escolas e das polícias. Agora, o general Uchôa
pede apenas um entendimento maior entre os
vários governos e suas ramificações, em defesa
de um recado concreto para os jovens. Alguns
ambientes de cidades grandes e pequenas são um
convite ao uso da droga: é preciso mostrar que
esse caminho está errado.
POR QUE A DROGA
TEM DE SER COMBATIDA
A conclusão é da
Organização das Nações Unidas (ONU): o Brasil
está entre os maiores consumidores de maconha do
mundo e tem ampliado o número de viciados em
cocaína. A maioria dos especialistas demonstra
que, ao contrário do que sugerem alguns
filósofos moderninhos demais, a maconha provoca
dependência e causa danos à saúde. É incrível
como, a cada mês, aparece algum político para
defender a legalização das drogas. Em maio, foi
a vez do senador Jefferson Pérez, do PDT do
Amazonas, declarar que o Brasil deveria discutir
no Congresso a descriminalização das drogas. Ou
seja: de acordo com Pérez, que é integrante da
Comissão de Relações Exteriores do Senado, nosso
País deveria participar de um movimento mundial
para fazer com que o consumo de droga não seja
mais considerado crime. E fico pensando: qual é
a intenção de Jefferson Pérez?! De duas, uma:
ele é um simples inocente útil ou está a serviço
do crime?
Houve época em que
o folclórico deputado federal Fernando Gabeira,
do PV do Rio de Janeiro, tornou-se o grande
defensor da liberação da maconha no Brasil. Ao
voltar de uma viagem ao Exterior, ele chegou até
a trazer uma muda de cannabis sativa, a erva de
cujas folhas é produzido o cigarro de maconha.
Nada mais ridículo e prejudicial para a
sociedade. Afinal, se médicos conceituados
expõem os riscos da droga, por que alguns
parlamentares insistem em pegar a contramão? O
psiquiatra Ronaldo Laranjeira, da Universidade
Federal de São Paulo, não deixa dúvidas: para
ele, a maconha provoca danos aos consumidores.
“A pessoa sente insônia, náusea, dores
musculares, inquietação, suor, diarréia, falta
de apetite e intensa vontade de usar a droga”,
explica Laranjeira.
Nos últimos dias,
jornais e revistas focalizaram com destaque uma
polêmica a respeito da maconha, ocorrida a
partir da declaração do conceituado psicólogo
Içami Tiba a uma emissora de rádio de São Paulo
no ano passado. Logo qua a jovem estudante de
Direito Suzane von Richthofen participou do
assassinato de seus pais e foi revelado que ela
tinha o hábito de consumir drogas, Içami Tiba
foi entrevistado e disse que aquela condição de
viciada em maconha certamente havia influído no
comportamento da moça. E mais: ele lamentou o
fato de Suzane ter adquirido o hábito de fumar
maconha com o namorado e no recinto da faculdade
em que ela estudava, a Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo (PUC-SP). Naquela
oportunidade, o psicólogo ressaltou que, na
visão dele, era um absurdo a direção da PUC ser
tolerante com uma evidência – a de que seus
alunos fumam maconha abertamente, em vários
pontos do campus da Rua Monte Alegre. Pois a
direção da PUC, perdendo uma boa oportunidade
para discutir a questão de modo evoluído e até
refletir sobre a possibilidade de ser mais
enérgica diante de traficantes e viciados em
drogas que freqüentam seu ambiente
universitário, acabou decidindo processar Içami
Tiba na Justiça. Não há como condenar o
psicólogo: há publicações de debates da PUC em
que não se discute se a maconha deve ser
proibida e sim em que área do campus deve ser
consumida.
Por que tapar o
sol com a peneira? Declarações como a de Içami
Tiba contribuem para atenuar posturas absurdas
como a do senador Jefferson Pérez. Com minha
experiência de mais de 30 anos em questões de
segurança pública, posso garantir: a droga é
perversa para todos e só traz vantagens para os
traficantes.
COMO TIRAR JOVENS
DO TRÁFICO
O governo Luiz
Inácio Lula da Silva anunciou, logo em sua
primeira semana após a posse, a decisão de
ampliar o combate ao tráfico de drogas em todo o
País. Uma providência importante partiu da
Secretaria de Estado dos Direitos Humanos, agora
ligada diretamente à Presidência da República e
não mais ao Ministério da Justiça: vai estender
a São Paulo e ao Rio de Janeiro um programa
experimental de proteção a jovens envolvidos com
o narcotráfico que queiram deixar a vida do
crime. Esse programa protegerá também as
famílias desses jovens. O plano, semelhante ao
de Proteção a Testemunhas, está em vigor no
Espírito Santo e em Minas. e terá ajuda
financeira de organismos internacionais.
Apesar de ainda
não haver uma data para aplicação desse sistema
no Estado de São Paulo, a iniciativa deve ser
elogiada. O novo secretário dos Direitos Humanos
do governo federal, Nilmário Miranda, que foi
deputado federal pelo PT de Minas, disse que
esse programa tem diferenças em comparação com o
de Proteção a Testemunhas, pois ajudará os
jovens a descobrir alternativas em relação ao
tráfico e não deixará de lado suas famílias.
A inclusão das
famílias, segundo Miranda, é uma necessidade, já
que, em muitos dos casos estudados pelo governo,
não apenas o menor corre risco ao se aproximar
do narcotráfico na periferia das cidades, mas
também seus pais ou irmãos. De fato: o jovem
contrai dívidas ou resolve deixar a vida que
leva, e a família pode sofrer retaliações dos
traficantes. Inúmeras tragédias ocorridas nos
últimos anos, em São Paulo, poderiam ter sido
evitadas se houvesse uma fórmula eficaz para
proteger os adolescentes. A droga arrasta
inúmeros jovens para o controle de quadrilhas,
que acaba matando-os.
De acordo com o
secretário Miranda, a medida de proteção aos
jovens será uma das prioridades da Secretaria
dos Direitos Humanos. No entanto, cabe aqui uma
observação. Miranda alega que essa prioridade é
decorrente das conclusões de levantamentos
feitos por organismos internacionais de proteção
à criança e aos adolescentes, indicando que
cresceu bastante o número de crianças e jovens
assassinados em inúmeras chacinas no País.
Acontece que, para chegar a essa idéia, o
governo do PT não precisaria tomar por base
pesquisas de fora e sim prestar atenção ao
noticiário do Brasil mesmo. A cada semana,
ocorre pelo menos mais um caso de chacina
envolvendo jovens na Grande São Paulo.
O plano de
proteção do governo deverá ser lançado ainda no
primeiro semestre deste ano, mesmo período em
que estará visitando o Brasil uma comissão de
inspeção da Organização das Nações Unidas (ONU)
ligada ao combate aos grupos de extermínio no
mundo. O secretário dos Direitos Humanos não
sabe ainda o número exato de jovens que serão
atingidos pelo programa, mas calcula que haja 20
mil adolescentes envolvidos com algum tipo de
crime no País. E ele está sendo até otimista...
Esse número é muito maior.
Logo que assumiu a
secretaria, em 2 de janeiro, Miranda prometeu
dar atenção especial aos 8 milhões de jovens
considerados “em situação de risco”, que
freqüentaram a escola por no máximo dois anos e
não têm trabalho. São eles que têm maiores
chances de serem recrutados pelos traficantes
para trabalho de “olheiros” ou vendedores de
droga e, em seguida, ficar sujeitos ao
assassinato pelas próprias quadrilhas. O plano é
muito bom. Só resta torcer para que o plano saia
do papel e consiga mesmo efeitos práticos.
QUANDO O GOVERNO VIRA TRAFICANTE
Um tema bastante
polêmico e delicado é o modo de os governos
enfrentarem o problema do crescente uso de
drogas, principalmente por parte dos jovens, em
nosso País. A atuação do poder público deve
atingir três diferentes níveis: prevenção,
tratamento e repressão. Os dois primeiros
envolvem a necessidade de ajuda de médicos, de
psicólogos e, claro, dos familiares dos jovens
sujeitos à tentação de aderir às drogas, um
triste caminho de difícil retorno. Já o terceiro
item, a repressão, tem tudo a ver com as
autoridades policiais: deve haver um duro
combate à máfia dos traficantes.
Acontece que nos
últimos dias o governo federal surpreendeu a
opinião pública ao divulgar uma notícia
assustadora: o Ministério da Saúde está
distribuindo cachimbos para viciados em crack em
São Paulo e em mais três cidades de outros
Estados: Salvador, na Bahia, Juiz de Fora, em
Minas, e Itajaí, em Santa Catarina. Convém
lembrar que crack é uma modalidade de droga
derivada da cocaína, de grande poder de
destruição da saúde. Tem sido consumido por
inúmeros jovens no centro e na periferia da
capital paulista e em cidades como Santos,
Guarujá, Campinas, Ribeirão Preto e São José dos
Campos. O viciado compra pedras de crack de
traficantes e as usa por meio de cachimbos,
aspirando a fumaça, passando a ter alucinações.
Pois bem: não é que o governo teve a absurda
idéia de fornecer cachimbos para os viciados,
alegando que dessa maneira combate a Aids?
Esse sistema de
distribuir cachimbo de crack e seringas para
cocaína injetável surgiu em Amsterdã, na
Holanda, onde as drogas são consumidas
abertamente. O problema é que a Holanda é
Holanda, Brasil é Brasil. Desse jeito, o governo
vira traficante.
Num de meus
recentes artigos, tive a oportunidade de elogiar
o novo comando da Secretaria Nacional
Antidrogas, entregue ao general Paulo Uchoa no
governo Luiz Inácio Lula da Silva. O general deu
entrevistas recentemente para comentar a tese de
Lula de que a repressão ao tráfico de drogas e a
prevenção contra o crescente uso de tóxicos
precisa ser uma prioridade não apenas da União
como também dos Estados e dos municípios. Numa
mensagem enviada ao Congresso, o presidente Lula
dedicou um capítulo inteiro à política de
prevenção, lembrando que a droga é uma das
ameaças à juventude e à sociedade como um todo.
Pouco mais de um mês depois disso, o Ministério
da Saúde, que também integra o governo Lula,
veio com essa conversa de que, ao distribuir
gratuitamente cachimbos para viciados de crack
em quatro cidades brasileiras estará
contribuindo para combater o risco de Aids e de
outras doenças sexualmente transmissíveis. Um
absurdo!
Insisto: Holanda é Holanda,
Brasil é Brasil. Amsterdã, uma linda cidade da
Holanda, tornou-se famosa pelo turismo de
drogas, que leva às ruas milhares de jovens de
outros países pelo fato de as leis holandesas
permitirem o consumo aberto de maconha, haxixe,
cocaína, heroína e outros tóxicos em verdadeiras
orgias da juventude desajustada. Imitar a
Holanda, nesta altura em que as drogas avançam a
cada ano no Brasil, é um erro que não tem
explicações. Com essa postura, o governo passa a
ser traficante. Diante dessa propaganda oficial
em torno das drogas, as máfias de traficantes
agradecem. O presidente Lula, que mostra empenho
em superar problemas de todos os tipos, precisa
ficar atento quanto às trapalhadas de sua
equipe. Há casos em que o tiro sai pela culatra.
Como esse! (Março / 2003)
ONU CONDENA A
LIBERAÇÃO DA MACONHA
A Organização das
Nações Unidas (ONU), instituição acima de
qualquer suspeita, manifestou-se de modo
contundente contra o movimento de determinadas
alas favoráveis à liberação da venda e do
consumo da maconha. A Junta Internacional de
Controle de Narcóticos (INCB), uma ramificação
da ONU que trabalha na prevenção contra o
tráfico e o uso de drogas, considera um seu
relatório anual “um erro histórico” as propostas
surgidas em alguns países do Ocidente pela
liberação da maconha.
De acordo com a
INCB, esses países “minam os convênios
internacionais” ao tentar suavizar a legislação
relativa à produção e ao consumo da maconha. O
organismo cita alguns países, como Itália,
Portugal, Espanha e Luxemburgo, por terem
decidido não considerar crime o cultivo e a
posse de maconha para uso individual. A Holanda
e a Suíça foram acusadas de desobedecerem
convênios da ONU. Na Holanda, por exemplo, já é
permitida a venda de vários tipos de drogas em
bares e cafeterias. Na Suíça, existe tentativa
de legalizar a posse da maconha.
O Brasil não é
citado pelo relatório da INCB, mas sabemos que
determinados deputados federais, como Fernando
Gabeira, do Rio de Janeiro, vêm desenvolvendo
campanhas pela liberação da maconha, alegando
que esse tóxico é inofensivo.
De tempos em
tempos, surge no Brasil um ou outro movimento
para que imitemos os maus exemplos dos europeus.
Holanda é Holanda, Brasil é Brasil. Em Amsterdã,
a droga passou a ser atração turística, por
conta do fato de o governo holandês não reprimir
os traficantes e os usuários. O sucesso dessa
iniciativa, porém, tem sido contestado.
Em relação ao
Brasil, está claro que a maconha pode ser a
porta de entrada para drogas mais fortes, como a
cocaína, o crack e a heroína. Alguns
conceituados médicos farmacologistas, como o dr.
José Elias Murad, de Belo Horizonte, deputado
federal, têm sido bastante rígidos quanto à
idéia de que a maconha provoca dependência e
causa seqüelas no comportamento das pessoas.
Essa tese foi igualmente defendida já nos anos
80 pelo médico egípcio Gabriel Nahas, então
radicado em Nova York.
Na ONU, o
presidente da Junta Internacional de Controle de
Narcóticos (INCB), Hamid Ghodse, mostra
preocupação diante do crescente uso da Internet
por traficantes que tentam incentivar a adesão
às drogas: “Existe perigo real de os benefícios
da Internet serem comprometidos seriamente pela
ação dos criminosos que a exploram para fins
ilícitos. Os governos devem enfrentar os
desafios que as novas tecnologias representam
para deter e reprimir as infrações”.
Houve épocas em
que determinados ídolos da música proclamavam
vantagens quanto ao uso da maconha. Com o tempo,
porém, esses artistas passaram a ter graves
problemas de saúde e de comportamento, o que os
levou a participar de campanhas do outro lado:
começaram a advertir seu público sobre os
perigos da droga. “Seja careta, não use droga”,
tem sido o apelo desses ex-viciados.
Como se vê, ao
contrário do que muita gente insinuava, combater
as drogas não é um hábito de pessoas
conservadoras. Tornou-se, isto sim, um recado da
ONU e de inúmeros artistas que experimentaram
tóxicos e concluíram que não vale a pena aderir
a esse mal.
AS ESCOLAS, AS
DROGAS E AS BEBIDAS
Pesquisas feitas
nas escolas públicas do Estado de São Paulo
mostram que determinadas unidades de ensino com
forte presença de drogas e bebidas alcoólicas
acabam sendo as que revelam casos mais graves de
violência e criminalidade entre alunos.
Esse panorama é
parecido em outros Estados. A Confederação
Nacional dos Trabalhadores em Educação fez uma
pesquisa em 26 Estados e chegou a um resultado
preocupante: os casos de violência são chocantes
nas escolas onde existe consumo ou até tráfico
de drogas, tanto em bairros mais nobres quanto
em áreas populares.
Foram pesquisadas
2.351 escolas particulares e públicas de todas
as regiões do país. Concluiu-se que o tráfico de
drogas está presente em 9,5% das instituições
das redes municipais, em 9,4% das estaduais e em
4,7% das particulares. Essa porcentagem mais
baixa entre as escolas particulares é
conseqüência, claro, que maior vigilância por
parte das escolas. Nas redes públicas, de uns
tempos para cá, os professores e diretores
começaram a ficar com medo de enfrentar alunos
viciados em drogas e chegaram a sofrer vários
tipos de violência por parte dos traficantes. Já
houve até assassinato de diretores.
O governador de
São Paulo, Geraldo Alckmin, anunciou
recentemente um pacote de providências contra as
drogas, as bebidas e a violência nas escolas
públicas do Estado.
Entre as novidades
está, por exemplo, a contratação de vigilantes,
algo que havia sido desarticulado na época do
governador Mário Covas. Outra providência
bastante válida: estudantes podem ser
revistados, para evitar que entrem com armas e
drogas nas escolas. Tal idéia não deve ser
combatida, uma vez que a inspeção ajuda a inibir
crimes.
Além das drogas,
as bebidas alcoólicas são um problema grave
entre estudantes. No Brasil, aumenta a cada dia
o número de adolescentes que consomem bebidas. E
o que é extremamente grave: a cada ano, diminui
a média de idade de jovens que aderem ao consumo
de algum tipo de álcool, como cerveja, vinho e
cachaça.
Em São Paulo e no
Rio de Janeiro, aumentou bastante o número de
jovens com esse problema. É claro que os
problemas sociais contribuem para isso, mas é
preciso também levar em conta a presença maciça
de propaganda de bebida na televisão.
Associação dos
Alcoólicos Anônimos do Rio de Janeiro verificou
que cresceu o número de jovens entre seus
freqüentadores. Pelo menos 20 por cento dos
atuais membros da entidade, que buscam apoio
para se livrar do vício, têm menos de 25 anos.
Segundo diretores
da associação carioca, existem crianças de
apenas 10 anos que começam a beber bebidas
alcoólicas e não conseguem mais parar: essas
bebidas, vendidas abertamente por todo País,
constituem a droga legalizada.
Está provado que,
a partir da bebida e do cigarro, determinados
jovens partem para as drogas ilícitas, como a
maconha, a cocaína e o crack. Trata-se de uma
situação que afeta todas as classes sociais, dos
brasileiros mais pobres aos mais ricos.
No Estado de São Paulo, algumas
escolas públicas são cercadas por bares
clandestinos, nos quais os alunos podem comprar
bebidas e até drogas. Diretores de escolas que
tentam acabar com esses verdadeiros camelôs do
vício são ameaçados de morte. Com isso, o
problema persiste e se multiplica, sob a
indiferença das autoridades.
(Julho / 2002)
O PAGODEIRO BELO E
A JUSTIÇA
O cidadão Marcelo
Pires Vieira, conhecido em todo o Brasil como
pagodeiro Belo, foi condenado pela Justiça do
Rio de Janeiro a seis anos de prisão por ligação
com o tráfico de drogas. Insistindo em dizer que
é inocente, Belo decidiu recorrer contra a
decisão da 34.ª Vara Criminal carioca, assumida
no fim de 2002 e anunciada nos primeiros dias
deste ano. De acordo com a legislação, o
pagodeiro fica em liberdade enquanto não é
julgado seu recurso e pode continuar a temporada
de shows agendados em vários Estados.
O caso assumiu
dimensões graves, no ano passado, quando a
polícia do Rio divulgou uma gravação de ligações
telefônicas de Belo, acusando-o de financiar
traficantes da Favela do Jacarezinho. Numa das
conversas, uma pessoa identificada como o
traficante Valdir Ferreira, o Vado, pede R$ 11
mil reais ao cantor para a compra de “tecido fino”, apelido dado à cocaína. De
acordo com a acusação, Belo concorda e pede em
troca um “tênis AR”, que, para a polícia, é como
chamam um fuzil AR-15. Vado morreu algumas
semanas depois, numa troca de tiros com
policiais.
O cantor foi indiciado, processado e preso em 5
de junho, sob a acusação de associação para o
tráfico de entorpecentes e porte ilegal de
armas. Ficou preso 37 dias numa delegacia, até
obter habeas-corpus, no Supremo Tribunal Federal
(STF). Belo chegou a aparecer em programas de
televisão e disse estar sendo vítima de
injustiça. No entanto, agora existe uma
sentença: Belo está condenado a seis anos de
prisão porque não conseguiu provar que nada tem
a ver com os traficantes. Não deve haver
privilégios para gente famosa. Se ele não for
declarado inocente em outro julgamento, terá de
ir para a cadeia.
PRECISAMOS DE CENTROS CONTRA DROGAS
Desta vez, a
advertência vem de uma instituição de peso, a
Organização das Nações Unidas (ONU): o Brasil
precisa ampliar seu número de centros para
tratamento de drogados até 2007, para não sofrer
ainda mais com o grave problema do crescimento
do número de viciados, especialmente no meio da
população jovem. Na atualidade, o País conta com
apenas 50 centros especialistas em lidar com o
tratamento de dependentes de drogas. O
representante regional do Escritório contra
Drogas e Crime Organizado da ONU que atua no
Brasil e nos demais países do Cone Sul, Giovanni
Quaglia, explica: "Se o Brasil conseguir reduzir
o número de dependentes, estará enfraquecendo o
poder do tráfico.”
A conclusão de
Quaglia é bastante válida. Na verdade, a luta
contra as drogas deve ocorrer em três planos: na
repressão aos traficantes, nas campanhas de
prevenção na mídia e no tratamento daqueles que
se envolveram com maconha, cocaína, crack e
outros tipos de tóxicos. O Brasil conta com
alguns centros de tratamento muito evoluídos,
mas seu número é inadequado para combater o
problema. O Estado de São Paulo vive hoje em dia
o drama do avanço da droga tanto na Capital,
quanto no Litoral e no Interior.
Espera-se, portanto, uma atuação eficaz por
parte dos governos federal e estaduais, para que
o Brasil coloque em prática a sugestão da ONU.
Como deputado estadual, tenho defendido o
investimento de verbas para a criação de novos
centros. Antes da desativação da Casa de
Detenção, no Carandiru, propus que um dos
pavilhões fosse transformado em hospital para
tratamento de drogados. O Governo preferiu usar
a área para outros fins, mas estou insistindo
para que seja ampliada a assistência a quem quer
abandonar a droga.
ONU
AVISA: DROGA SIGNIFICA VIOLÊNCIA
A ONU faz, em Nova York e em
Brasília, uma grave denúncia: o Brasil é um dos
países em que mais cresceram o tráfico e o
consumo de drogas nos últimos anos. E mais: uma
grande parte dos 30 mil assassinatos ocorridos a
cada ano em território brasileiro tem relação
direta com o tráfico e o uso dos mais diferentes
tipos de drogas. No entanto, o governo federal
vai na contramão da busca de soluções e nada faz
para atenuar esse panorama dramático.
As informações foram divulgadas
pela ONU, no mês de março. Trata-se do relatório
anual do Conselho Internacional de Controle de
Narcóticos, órgão que faz parte daquela
instituição. No capítulo inteiramente dedicado
ao Brasil, aparece uma advertência: “A violência
relacionada com as drogas é um desafio nacional
particularmente sério, que tem um grande impacto
nas comunidades.” Entre as seqüelas desse
impacto está a participação de um grande número
de crianças e jovens no tráfico de drogas,
especialmente em favelas do Rio de Janeiro e na
periferia de São Paulo. O documento da ONU
refere-se aos meninos de rua do Brasil como
grandes vítimas do avanço do tráfico de drogas:
eles são usados como intermediários dos
traficantes para a distribuição de tóxicos aos
consumidores e acabam sendo assassinados.
O balanço da ONU não traz novidade para quem se
acostumou a enfrentar notícias diárias sobre
violência no País, mas deveria ser advertência
para uma reação do governo federal, tão
tolerante ao avanço das drogas.
JOVENS DESTRUÍDOS PELAS DROGAS
Já não existem exceções. Cidades
pequenas e médias do Estado de São Paulo vivem
situação semelhante à dos municípios da região
da Capital, no campo do consumo de drogas. A
cada ano, os números são mais assustadores. E o
que é pior: as ações contra esse mal esbarram em
erros dos governos.
Os perfis dos dependentes de
drogas mostram que crianças e adolescentes de 15
anos de idade ou menos representam 23% do total
dos que aderiram ao vício em nosso Estado. Isto
significa que a droga avança ainda mais nas
escolas e até nas casas de família, enquanto os
traficantes agem livremente.
A Divisão de Prevenção e Educação
do Departamento de Investigações sobre
Narcóticos (Denarc), da Secretaria da Segurança
Pública, entrevistou 3.115 pessoas detidas nos
últimos anos por vender ou consumir tóxicos.
Policiais experientes com acesso a esses dados
ficaram chocados com o aumento da participação
de jovens tanto no tráfico quanto no consumo.
Isso tudo tem muito a ver com a
desagregação das famílias, mas também com a
falta de ação conjunta das polícias Federal,
Militar e Civil, uma vez que a propalada
sintonia nunca vai adiante. De acordo com uma
pesquisa, os jovens paulistanos começam mais
cedo no consumo de bebidas alcoólicas: aos 11
anos.
Das bebidas e do cigarro para a
maconha e outras drogas, é um passo rápido.
Pais, responsáveis e educadores precisam se
esforçar mais para advertir nossa juventude para
os riscos do consumo de narcóticos.
GIBA, ÍDOLOS, ESPORTE E DROGAS
O jogador de
vôlei Giba, da seleção brasileira que foi campeã
mundial e do time de Ferrara, na Itália,
suspenso nas competições italianas por ter sido
constatado num exame que ele atuou numa partida
sob o efeito de maconha, visitou o Brasil nos
últimos dias para tentar explicar que jamais foi
viciado em drogas. Ele ficou sem jogar desde 27
de janeiro, quando a imprensa noticiou o
resultado do exame antidoping feito em 15 de
dezembro. Na verdade, a punição imposta pela
entidade italiana ao jogador brasileiro foi
relativamente suave, apenas 18 dias de
suspensão, mas o desgaste provocado pelo
incidente acabou sendo muito grande, como o
próprio Giba reconhece, temendo pelo futuro de
sua carreira.
Em suas
entrevistas, Giba, de 27 anos, diz que pretende
recuperar a imagem de
um dos
símbolos do vôlei. Ele concorda em participar
gratuitamente de campanhas contra as drogas e
garante que não é viciado em cocaína, tanto que
havia passado por outros exames.
Inegável é o fato
de Giba ter consumido maconha antes de pelo
menos um jogo, o de 15 de dezembro: o exame de
laboratório não falhou. Os dirigentes italianos,
por sua vez, não foram injustos ao punir o
atleta, uma vez que a maconha está incluída na
lista de tudo aquilo que é considerado doping
e, conseqüentemente, proibido em competições.
É muito
saudável a preocupação de Giba em tentar
recuperar sua imagem positiva e entrar em
campanhas contra as drogas. No entanto, deve
ficar bem claro que não existe essa história de
ser consumidor eventual. Droga, esporte e ídolo
são incompatíveis. Atletas que ganham salários
enormes devem pensar bastante a respeito de seu
papel perante a juventude. O mesmo ocorre com
artistas. O ídolo impõe estilos: para o bem ou
para o mal.
A POLÍCIA FEDERAL E O TRÁFICO DE DROGAS
O novo
diretor-geral do Departamento de Polícia
Federal, Paulo Fernando da Costa Lacerda, que
assumiu o cargo na segunda semana do ano, em
Brasília, anunciou em sua posse a disposição de
intensificar o combate ao tráfico de drogas em
todo o País. Na verdade, a escolha de Paulo
Lacerda, delegado aposentado da Polícia Federal,
deve ser recebida com apoio de todos nós. Esse
conceituado delegado da cidade goiana de
Anápolis assume o mais alto cargo da Polícia
Federal com a missão de tentar superar graves
problemas, entre os quais o do narcotráfico e o
da falta de sintonia na área federal.
Como deputado
estadual de São Paulo, especializado nas
questões da Segurança Pública, reeleito em
outubro para a quinta legislatura consecutiva,
fui presidente da CPI que investigou o Crime
Organizado no Estado de São Paulo, de 1995 a
1999, e acompanhei a atuação do delegado Paulo
Lacerda na época do inquérito sobre o esquema PC
Farias, em 1992, e quando das CPIs do
Narcotráfico e do Roubo de Cargas. A escolha do
governo Luiz Inácio Lula da Silva não poderia
ter sido melhor. A questão, agora, é saber até
que ponto o governo do PT saberá manter o
equilíbrio entre suas várias áreas ligadas ao
combate à criminalidade. No governo FHC, houve
vários choques entre essas áreas.
Deve ficar bem
claro que cabe à Polícia Federal coordenar as
ações contra as quadrilhas internacionais de
traficantes de drogas, que a cada dia ampliam
seu domínio no Brasil, onde a fama de impunidade
ultrapassa as fronteiras. Por causa de sua
tradição de esquerda, o PT sempre teve
dificuldade para lidar com a questão policial,
mas, agora que chegou ao poder, tem de exercer
autoridade, com rigor, contra o banditismo.
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