
Mortes no trânsito: um Boeing por dia!
No
fim de setembro, às vésperas das eleições, o
Brasil ficou chocado com a queda de um Boeing da
empresa Gol sobre a Amazônia, no trajeto entre
Manaus e o Rio de Janeiro. As causas e os
detalhes do acidente já foram suficientemente
discutidos e analisados. O que importa é que, em
apenas alguns segundos, morreram 154 pessoas, um
triste recorde da história da aviação comercial
brasileira. Desastres aéreos provocam impacto na
opinião pública porque geralmente resultam em
muitas mortes de uma só vez, com raros casos de
sobreviventes. Há quem tenha tanto medo de
viajar de avião, a ponto de optar por longos e
demorados trajetos de automóvel ou ônibus.
Quem prefere enfrentar as rodovias está salvo?
Não. Ao contrário: as estatísticas mostram que,
no País, a proporção de mortes em viagens
terrestres tem sido muito maior do que nas
aéreas. E isso é terrível. Ao contrário de
nações mais evoluídas na economia e na cultura,
o Brasil perde, a cada ano, cerca de 60 mil
vidas em acidentes de trânsito nas ruas e nas
estradas. Feitas as contas, são 164 mortes por
dia! Um Boeing lotado caindo e matando a cada
dia!
Algumas estatísticas anunciam 40 mil mortes no
trânsito por ano. Outras chegam a 50 mil. E
existe explicação para o fato de os números da
Fundação Vida Urgente apontarem uma situação
ainda mais grave: 60 mil mortes por ano, em
média. Neste último caso, são computadas não
apenas as mortes ocorridas no local do acidente
como também as de feridos que morrem em
hospitais.
Esses acidentes representam para o Brasil um
desperdício de vidas e também de dinheiro.
Desastres em ruas e estradas consomem R$ 27
bilhões por ano, o que significa jogar fora 1,7%
do Produto Interno Bruto (PIB) do País!
Menos mal que no Estado de São Paulo as rodovias
têm pedágio caro, mas apresentam qualidade e
segurança, principalmente naquelas de duas
pistas e de constante vigilância. Quem atravessa
a divisa com Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e
outros Estados convive com o drama de estradas
que existem só no mapa. No entanto, mesmo assim,
é perigoso viajar pelas rodovias paulistas tanto
em tempo de férias quanto em qualquer outra
época. Isto por causa da imprudência e da
impunidade.
O Brasil possui um Código de Trânsito rigoroso,
mas nem sempre respeitado: motoristas abusam da
velocidade e das bebidas alcoólicas e cometem
verdadeiros absurdos ao volante. Por outro lado,
há pedestres que têm culpa por grande parte dos
acidentes, por atravessarem ruas, avenidas e
estradas sem qualquer cuidado básico.
De acordo com os dados oficiais do DataSus,
órgão do Ministério da Saúde, só em 2004
morreram 70.994 pessoas nos locais dos acidentes
e nos hospitais. Calcula-se que a média de 2005
e 2006 tenha sido de 60 mil.
A cada ano, o Brasil perde, em acidentes, mais
pessoas que o número de soldados dos Estados
Unidos mortos em 10 anos da Guerra do Vietnã!
Nosso trânsito é uma guerra, é uma sucessão de
Boeings caindo. Alguma coisa precisa ser
feita...
O que pode ser feito para atenuar esse panorama
de tragédia nacional? Cada um tem uma missão a
cumprir. O governo federal precisa melhorar a
qualidade das estradas e não ficar só prometendo
tapar buracos. O governo estadual deve ir além
de instalar radares para multar por excesso de
velocidade: vale a pena ampliar o número de
guardas da Polícia Rodoviária, para que esse
contingente exerça a função de prevenção.
A mídia pode e deve também ajudar a reduzir o
número de acidentes, intensificando campanhas de
esclarecimento junto aos motoristas e pedestres
por meio de jornais, revistas, emissoras de
rádio e TV e sites de internet. Os
publicitários, por sua vez, deveriam pensar duas
vezes antes de aceitarem a tarefa de fazer
anúncios criativos para vender mais cerveja e
outras bebidas alcoólicas. Infelizmente, a cada
ano os jovens começam a beber mais cedo,
estimulados pelas bonitas mulheres dos anúncios
e pela falsa idéia de que o álcool traz alegria
e sucesso.
O Poder Legislativo também tem uma missão a
cumprir, produzindo leis ainda mais rigorosas
para o trânsito. Já o Poder Judiciário pode
contribuir por meio de uma reflexão sobre o
combate à impunidade. Na história dos acidentes
do País, há inúmeros casos em que motoristas
condenados por homicídio pagam advogados caros e
conseguem recorrer em liberdade. Isso tem de
acabar. Já a sociedade, em si, deve se
conscientizar sobre o próprio comportamento e
parar de usar o carro como se fosse uma arma.
Que tal começar, agora, a salvar vidas?
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