Afinal,
de que valem os cursos de especialização que
fazem no exterior os integrantes do Gate (Grupo
de Ações Táticas Especiais) da Polícia Militar,
tropa empregada para operações de risco,
principalmente de resgate de reféns?
É
bastante comum ouvirmos que os treinamentos
específicos junto às policias norte-americanas (Swat),
Israel, Alemanha, Bulgária e outras têm norteado
toda a doutrina empregada na solução desses
casos. E, a bem da verdade, foram muitos nos
últimos anos, talvez dos maiores do mundo.
Pergunto
de que valem todos esses estudos, treinamentos,
troca de experiências, quando, na prática, como
aconteceu recentemente em Santo André, no
trágico cárcere privado que durou mais de 100
horas, o coronel-comandante do Batalhão de
Choque, totalmente despreparado para essas
ações, foi quem sempre deu a palavra final,
comprometendo totalmente a ocorrência, onde o
criminoso tomador das reféns saiu ileso e as
duas garotas-vítimas acabaram, uma morta e a
outra com tiro na boca?
Lamento
comentar que toda a operação foi uma sucessão de
erros, permitindo a polícia que o controle de
tudo fosse assumido pelo rapaz acometido sabe-se
lá de que tipo de doença, surto ou outra coisa
qualquer. Quando o comandante (!?)
posteriormente afirmou que não mandou invadir
antes o local ou autorizou o “tiro de
comprometimento” (disparo fatal) perpetrado por
atirador de escol, assumiu condição que a ele
não competia de analisar psicologicamente o
ameaçador indivíduo.
Qualquer
brochura de ensino tático ensina o contrário e a
isso talvez o coronel-comandante não tenha tido
acesso, para tanto ter desvirtuado os chamados
protocolos internacionais de intervenção em
ocorrências semelhantes. Quanta
irresponsabilidade!
Depois
de tanto tempo de negociação, após o transtorno
todo à comunidade, onde moradores de dois
conjuntos residenciais não podiam nem sair ou
entrar em suas casas, um colégio de 1.300 alunos
tinha suspensas as aulas, um posto de saúde ter
ficado fechado, comércio lacrado e outros
incômodos, o pessoal do Gate não sabia nem das
posições dos móveis do recinto, mal tinha noção
de que havia uma barricada para impedir a
invasão pela porta da frente e, pior, a imprensa
toda documentou que nem a escada para acesso por
uma das janelas tinha tamanho razoável para
facilitar o ingresso rápido de policiais.
Cenas
dramáticas, lamentáveis, tristemente
preocupantes para aqueles que sempre repetem
tratar-se o Gate “um grupo de elite da PM
paulista, com pessoal altamente treinado”. Que
mentira... Mas a culpa é de quem? Do sistema, da
equivocada política de se premiar o bandido e
penalizar-se o policial, além, obviamente, da
vontade de aparecer, da vaidade pessoal de
alguns superiores hierárquicos?
A volta
da menina de 15 anos ao cativeiro então, nem
merece consideração. Tivesse isso ocorrido em
outros países, o comandante da operação sairia
preso do local e estaria imediatamente
destituído. Aqui todos palpitam: parente do
criminoso, familiar da vítima, inspetor do
quarteirão, líder comunitário, promotor, padre,
bispo, jornalista, “especialistas”, analistas, e
o diabo-a-quatro. E deu no que deu...
Volto à
pergunta inicial: de que valem os cursos fora do
país, os extenuantes treinamentos físicos,
táticos, etc, se na hora de colocar tudo isso em
prática, uma voz superior fala mais alto, mesmo
contrariando todo o aprendizado, leva uma
operação inteira a risco, compromete vidas
inocentes e, em última análise, depõe contra
toda a Polícia?
Conheci
alguns grupos especializados em operação e, por
um bom tempo, por força da profissão, participei
de cursos de operações especiais e,
sinceramente, o que se viu no triste caso de
Santo André, não se aprende em cartilha alguma.
Nunca o caso poderia ter demorado tanto e jamais
uma invasão seria feita de forma tão atabalhoada
e “no escuro”.
Numa
próxima ocorrência a política de negociação será
diferente? Quem sabe. Uma única coisa é
altamente necessária para a segurança de todos:
mantenham o coronel-comandante trapalhão longe
do palco das operações. Se ainda estiver
comandando alguma coisa até lá...
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